Iniciativa, empreendedorismo, força de vontade... Por mais virtuosas ou detestáveis que as características possam parecer, elas têm dois lados. Pra mim, sempre tiveram. Mesmo as mais veneradas no mundo dos negócios, ou aquelas que aprendemos a valorizar ao extremo nas nossas respectivas culturas.
Às voltas das minhas primeiras 6 semanas na Austrália, me peguei conversando com empresários indianos sobre minha experiência profissional no Brasil em uma entrevista para uma simples vaga de garçom. É comum os intercambistas, ao menos por aqui, mentirem nessa etapa. O motivo é claro: todos os sul americanos que embarcam nesse tipo de experiência estão à margem do que realmente é a América do Sul (ao menos economicamente). No mínimo, pertencem ao que convencionamos chamar de classe média: normalmente o perfil é o jovem cursando a universidade, o que varia um pouco para os que vem durante a escola ou antes de começar a fazer curso superior; até os que vem mais tardiamente, já com uma vida profissional engatilhada, entretanto buscando um upgrade por conta do aprendizado do inglês. O resultado desse perfil é que essa massa de estudantes desembarca do país-continente sem falar inglês e querendo trabalhar, todavia sem ter experiência em nada que se possa ser feito por quem não sabe falar a língua; por fim, mentir sobre o que fez no passado acaba sendo a opção mais simples pra seduzir os empregadores.
Não que eu seja o ser humano mais puritano do mundo pra mentiras, mas pra mim a equação parecia simples: bastaria meio segundo segurando uma bandeja pra que um dono de restaurante há 50 anos visse que eu nunca fiz isso na vida, portanto, decidi falar a verdade. Nesse caso, antes tivesse mentido.
No primeiro contato, minha experiência rendeu uma boa conversa, com direito a uma provinha da apimentada comida indiana e tudo. Soube um pouquinho sobre a história deles, do restaurante e tudo mais. Eu, que buscava trabalho como garçom, saí da entrevista sonhando alto. Afinal, além do ofício de servir os clientes, que mal faria pensar em algumas coisas pra mostrar pra eles, já que as idéias me fluem tão automaticamente...
A receita parece simples: unta-se o pensamento com um pouquinho da teoria da faculdade, coloca-se em fogo brando o que você acabou de conhecer do negócio, adiciona o que já se viu por aí (seu background), uma pitada de idéias fescas e a mistura já é um pequeno plano de ação. Demorou menos de uma semana pra eu apresentar um projetinho besta, e eles dizerem pra mim "bem que você pode gerenciar nosso restaurante".
Desde então, ganhei as chaves do restaurante e o encarregado mais antigo recebeu ordens pra que eu pudesse fazer o que quisesse. Carta branca, ora bolas! "Austrália, terra das oportunidades" pensei de imediato.
Uma semana depois, em uma reunião com toda família de indianos-cidadãos-australianos, a moral não pára de crescer. "This guy never stops to surprise me" diz a matriarca. Planejo uma pesquisa de marketing pros três restaurantes da rede pra delimitar as fraquezas do negócio, faço pesquisa nos concorrentes, corro atrás de implementação das idéias, e não percebo que apesar das 50 horas que trabalhei apenas na primeira semana, não recebi nenhum centavo do que tínhamos combinado. Assim se passaram dezessete dias de idéias bem recebidas e promessas de pagamentos, até que a situação se tornou insustentável.
O balanço da aventura foi três tipos de acertos de pagamentos diferentes e muita excitação profissional não recompensada financeiramente.
Aos quatro meses e meio do meu intercâmbio, hoje posso rir disso. A coisa toda do trabalho vai muito bem obrigado, mas àquela altura, eu só conseguia pensar nos que mentiram e tiveram dias tranqüilos aos finais de semana.
E quanto a mim, bom, o idealismo, dessa vez profissional, um dia há de me fazer muito feliz e bem sucedido.
Amém.

