3 de Julho de 2009

Onde colocamos nossas fichas

Iniciativa, empreendedorismo, força de vontade... Por mais virtuosas ou detestáveis que as características possam parecer, elas têm dois lados. Pra mim, sempre tiveram. Mesmo as mais veneradas no mundo dos negócios, ou aquelas que aprendemos a valorizar ao extremo nas nossas respectivas culturas.

 

Às voltas das minhas primeiras 6 semanas na Austrália, me peguei conversando com empresários indianos sobre minha experiência profissional no Brasil em uma entrevista para uma simples vaga de garçom. É comum os intercambistas, ao menos por aqui, mentirem nessa etapa. O motivo é claro: todos os sul americanos que embarcam nesse tipo de experiência estão à margem do que realmente é a América do Sul (ao menos economicamente). No mínimo, pertencem ao que convencionamos chamar de classe média: normalmente o perfil é o jovem cursando a universidade, o que varia um pouco para os que vem durante a escola ou antes de começar a fazer curso superior; até os que vem mais tardiamente, já com uma vida profissional engatilhada, entretanto buscando um upgrade por conta do aprendizado do inglês. O resultado desse perfil é que essa massa de estudantes desembarca do país-continente sem falar inglês e querendo trabalhar, todavia sem ter experiência em nada que se possa ser feito por quem não sabe falar a língua; por fim, mentir sobre o que fez no passado acaba sendo a opção mais simples pra seduzir os empregadores.

Não que eu seja o ser humano mais puritano do mundo pra mentiras, mas pra mim a equação parecia simples: bastaria meio segundo segurando uma bandeja pra que um dono de restaurante há 50 anos visse que eu nunca fiz isso na vida, portanto, decidi falar a verdade. Nesse caso, antes tivesse mentido.

 

No primeiro contato, minha experiência rendeu uma boa conversa, com direito a uma provinha da apimentada comida indiana e tudo. Soube um pouquinho sobre a história deles, do restaurante e tudo mais. Eu, que buscava trabalho como garçom, saí da entrevista sonhando alto. Afinal, além do ofício de servir os clientes, que mal faria pensar em algumas coisas pra mostrar pra eles, já que as idéias me fluem tão automaticamente...

A receita parece simples: unta-se o pensamento com um pouquinho da teoria da faculdade, coloca-se em fogo brando o que você acabou de conhecer do negócio, adiciona o que já se viu por aí (seu background), uma pitada de idéias fescas e a mistura já é um pequeno plano de ação. Demorou menos de uma semana pra eu apresentar um projetinho besta, e eles dizerem pra mim "bem que você pode gerenciar nosso restaurante".

Desde então, ganhei as chaves do restaurante e o encarregado mais antigo recebeu ordens pra que eu pudesse fazer o que quisesse. Carta branca, ora bolas! "Austrália, terra das oportunidades" pensei de imediato.

 

Uma semana depois, em uma reunião com toda família de indianos-cidadãos-australianos, a moral não pára de crescer. "This guy never stops to surprise me" diz a matriarca. Planejo uma pesquisa de marketing pros três restaurantes da rede pra delimitar as fraquezas do negócio, faço pesquisa nos concorrentes, corro atrás de implementação das idéias, e não percebo que apesar das 50 horas que trabalhei apenas na primeira semana, não recebi nenhum centavo do que tínhamos combinado. Assim se passaram dezessete dias de idéias bem recebidas e promessas de pagamentos, até que a situação se tornou insustentável.

O balanço da aventura foi três tipos de acertos de pagamentos diferentes e muita excitação profissional não recompensada financeiramente.

 

                Aos quatro meses e meio do meu intercâmbio, hoje posso rir disso. A coisa toda do trabalho vai muito bem obrigado, mas àquela altura, eu só conseguia pensar nos que mentiram e tiveram dias tranqüilos aos finais de semana.

E quanto a mim, bom, o idealismo, dessa vez profissional, um dia há de me fazer muito feliz e bem sucedido.

 

Amém.

5 de Junho de 2009

Como funciona isso

No meu primeiro semestre estudando Marketing freqüentei algumas disciplinas compartilhadas com graduandos em Propaganda. Uma delas em especial, dedicava boa parte do conteúdo ao impacto da comunicação (nesse caso, propaganda) nos consumidores finais.

                Em uma das abordagens começamos a estudar um pouquinho de neurologia e neurolinguística, em especial as áreas do cérebro que eram afetadas pelos tipos de apelo. Eu adorava. Na época, lembro que me lancei nas leituras sobre isso, começamos até a criar um clã pra fazer alguma coisa a esse respeito.

                A professora ficava meio preocupada com as viagens e aprofundamentos que surgiam desde então, mas, fora isso era bastante saudável.

 

                Por sua vez, o aprendizado do inglês pelas diferentes pessoas e caminhos têm movido minha curiosidade nesses tempos. Costumo dedicar minha atenção à investigar sorrateiramente o que as pessoas à minha volta sentem ou vivem a respeito disso por aqui, uma vez que estamos curiosamente vivendo a mesma respiração, apesar dos abismos que diferenciam a todos nós: colombianos, chilenos, sulistas, baianos, paulistas, gente de todo tipo. Como se portam, como pensam, interagem e assim por diante, focando tudo isso no aprendizado da língua.

Definitivamente, os mistérios que separam o céu e a terra são tantos neste assunto também. São inúmeros os métodos e certezas, tanto quanto se pode imaginar. Antes mesmo d'eu deixar soterópolis as opiniões já eram divergentes. Uns achavam que um investimento desse porte sem um estudo prévio a rigor (nesse caso, fazer curso de inglês da imersão no exterior) era besteira, já outros diziam que "esse negócio de curso de inglês aqui é tudo bobagem", além, claro, de todas as variações que podem existir entre esses extremos.

Foi pensando nisso que procurei algumas coisas na internet a respeito: queria entender o que os pesquisadores pensam a respeito, o que eles mensuraram no comportamento e nas possibilidades biológicas humanas, e assim por diante. Muitos dos textos são chatos ou complexos demais pra uma leitura rápida, mas este em especial é bastante nutritivo não tomará muito tempo, caso você deseje estender seu conhecimento um pouco mais sobre o assunto. O texto é de um pesquisador norte americano chamado Stephen Krashen.

29 de Maio de 2009

Alegoria


Eu gosto de contar a história de quando aprendi a tocar violão. Aconteceu quando eu morei sozinho no Sul, aos 15.

Tenho amigos que tem verdadeiro talento para a música, gente que tem a baianidade em todos os poros do corpo. Já eu, sou mais baiano pra outras coisas: lembro bem que foi um esforço absurdo. Nunca fiz uma aula, nunca tive orientador, mas estava decidido a aprender. À flor da adolescência, achava fantástico quando meus amigos tocavam para os grupos de amigos e animavam as rodas. Pra completar, uma vez li em algum lugar que as mulheres se sentiam absurda e inconscientemente atraídas pelos encantamentos dos bardos músicos, coisa que eles também já sabiam instintivamente há muito tempo. Definitivamente eu queria aprender na mesma proporção que as pessoas que viviam na mesma casa que eu queriam me matar.

Foram meses de tentativas que não faziam nenhum sentido.

Um ano depois, eu já não passava vergonha. Meus amigos músicos, genuinamente presenteados por Deus com o dom, sempre perceberam os erros que cometia e cometo, mas para o grande público o som é palatável e interessante, e foi exatamente assim que encantei aquela que desejo que seja minha mulher. Touchê.

Essa estória faz bastante sentido agora, mais uma vez.

22 de Maio de 2009

Uma sensação chamada segurança

A violência é uma coisa que me aflige.

Nascido e criado em Salvador, sempre convivi relativamente bem com a violência urbana, o que quer dizer que na maioria das vezes sabia como tentar evitar situações desconfortáveis, e no eixo do meu coração isso nunca me fez deixar de querer viver minha vida na cidade que mais amo, ou no país que é meu de coração, por direito e do qual costumava sonhar em ser Presidente da República.

 

"Você vai sentir o que é viver podendo fazer o que quiser, quando quiser" foi o que disse minha irmã, que acabara de completar o mestrado na Espanha e uma dúzia de outras pessoas que também moraram fora. Eu nunca duvidei, embora apenas imaginasse vagamente o que isso queria dizer. A sensação de viver isso é muitas vezes maior do que a idéia que fazia dessa experiência.

 

Dez semanas depois do meu embarque, a idéia mais exata que tenho do meu futuro são possibilidades vagas e incipientes, mas a questão da violência me preocupa mais do que antes. Talvez por conta de algumas possibilidades minhas de voltar ao Brasil um dia, talvez por minha mãe estar lá sozinha, talvez pela agonia que é o nosso povo não poder viver essa sensação tão gostosa de completa segurança pública.

"Uma mente expandida nunca mais volta ao seu tamanho original" é uma máxima que sempre gosto de citar, de Einstein. Nem de longe considero a experiência da odisséia australiana superior ao projeto brasileiro, mas viver sem violência é... é.... inefável.

18 de Maio de 2009

Sinais

Resisto a acreditar que existe um plano pra nós. Como quase todos nesses tempos, tendo a pensar que as energias que emanamos desbravam nossos caminhos no universo e que somos resultado das nossas vontades, da capacidade de dominar a própria mente, das influências de tudo que todos emanam no universo e um mol de outras coisas.

Me parece que sempre está tudo junto ao mesmo tempo.

 

Os sinais que estão por aí me fascinam e me confundem. Talvez daqui há 30 anos eu tenha sabedoria pra entender melhor tudo isso, quiçá explicar minhas próprias percepções.

 

Por enquanto, vou aprendendo a ler os sinais.

26 de Abril de 2009

Negação

Demorei pra chegar a essa conclusão, mas a fase da negação é inevitável. Por mais memorável que pareça o feito, seja lá o que esteja prometido para depois da tormenta ou quais forem os humores dos tempos, há um momento onde você vai parar pra pensar e considerar que errou. A fase da negação.

Tenhamos nós uma ou oito décadas de experiência, enquanto respirarmos estaremos passíveis de erro. Pior que isso... talvez as nossas certezas mais centrais estejam simplesmente........ completa e absurdamente erradas. Considerar o erro diminui as chances de desastres, considerá-lo apenas pode nos assegurar um belíssimo lugar à mais completa inércia.

 

Durante quase seis semanas eu vivi a tormenta da busca por um trabalho que parecia não chegar nunca. Longas seis semanas, pra quem está nessa situação. O paraíso australiano não é mais o mesmo, diziam os pessimistas de plantão. A pasárgada Australiana acontecia nessas mesmas ruas, bradavam os nostálgicos em plenos pulmões, referindo-se ao inimaginável tempo em que os intercambistas eram parados nas ruas pelos empregadores que queriam gente pra trabalhar. Os otimistas..... bom, esses estavam meio calados ultimamente.

Foi assim que atravessei esse período de negação. Se, por um lado, o aprendizado de inglês é acelerado absurdamente, por outro, onde fica o orgulho do rapazinho que trabalhava duro desde cedo pra pagar suas coisinhas? Onde fica o sonho que de que a vida vai ser melhor, que trabalhando duro poderíamos honrar os meios pelos quais viemos pra cá, e que everything is gonna be all right?.

Enfrentar a negação com convicção e pé no chão é importante. Sim, eu podia estar errado, mas não ia ser por falta de esforço que ia deixar de alcançar o que vim aqui conquistar, e foi bem assim que cheguei onde queria chegar.

Everything is gonna be all right mesmo.

11 de Abril de 2009

Re-alfabetizando

Vamos encarar os fatos com realidade: aprender outra língua é chato.

Eu mesmo posso fechar os olhos e pensar em um mol de argumentos pra refutar essa fala. Depois de algum tempo o mundo vai lhe ser mais claro, suas oportunidades serão melhores, seus horizontes expandir-se-ão e tudo mais. Mas não estou falando da recompensa.

 

Sim, eu sinto inveja daqueles que estudaram anos de inglês no Brasil, com aquela paciência budistica das aulas às terças e quintas, segundas e quartas ou sábados. Ah. Isso também é bem verdade.

O ponto é que eu sempre considerei tão excitante tudo que eu fazia que nunca quis ter espaço pra esse aprendizado re-alfabetizante. Ora.... recentemente, quando estava no Brasil, tinha duas atividades profissionais distintas paralelas e ainda a faculdade. Excitação é a palavra certa pra se referir à como gosto de encarar meus desafios profissionais. E quando isso acontece, fica difícil pensar em curso de inglês duas vezes por semana, dever de casa. Quando é que eu iria parar de fazer meus planejamentos e deixar de pensar nas soluções pra aprender verbo to be?

A vida sempre foi muito veloz pra mim, sempre me envolveu demais, e eu não queria parar. E nem estou me referindo à recompensa, nesse caso.

Esse é o mal do empreendedor. A cabeça não pára. Não me dedico apenas a solucionar minhas tarefas, sejam elas trabalhando pros outros ou pra mim: sinto sempre necessidade colossal de criar mais, e mais, embriagando-me completamente nesses processos.

 

Mas aqui tudo é diferente. Minha vida profissional está pausada. Os anseios de ser e acontecer deste ponto de vista ficaram no Aeroporto Dois de Julho. Aqui eu sou apenas uma criança se re-alfabetizando. Faço dever de casa, perco horas assistindo filmes em inglês, pausando-os para buscar o nexo das falas na menor velocidade, ando pelas ruas dedicado à entender a linguagem própria das propagandas, tenho conversas à toa com velhinhos e crianças apenas pra os conhecer e ouvir seu inglês, ouço as conversas de terceiros no metrô. Sim! Eu realmente posso fazer isso aqui, pois nada de mais excitante tenho pra fazer em lugar nenhum.

Na prática, minha vida no Brasil não me permitia esse tempo. A realidade à qual vim ao mundo sempre foi muito difícil, e eu nunca me esquivei de a enfrentar com todas as minhas forças, o tempo todo.

 

Ah, claro. Esta minha fala não se dedica a menosprezar os cursos de inglês em solo brazuca, a dedicação que se destina à este aprendizado e o precioso tempo que se usa pra isso. De forma alguma! Bem pelo contrário... se a criança, o jovem ou adulto tem condições de se dar a este luxo, que o faça. Que estude inglês em paralelo à escola, à faculdade, à vida. Vejo o quanto isso é proveitoso para os que o fizeram e agora estão aqui.

 

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Sinceramente..... não consigo pensar em nada mais sensato que poderia ter feito por mim mesmo. Seja lá o caminho que tome minha vida, por onde ou como seja.

A forma como o inglês está fluindo, as experiências que estou vivendo, as coisas que estou vendo, os novos olhos que ganhei para ver o mundo.

Todo mundo realmente estava certo: eu realmente precisava vir o mais rápido possível.

27 de Março de 2009

Refazendas e ambivalências

Enquanto tento ler meu primeiro livro em inglês, um grupo de coreanos tem no outro cômodo uma acalorada discussão sobre algum assunto que nunca saberei do que se trata. Consulto o dicionário, reviro minha mente buscando o significado para outra frase. A bela Sydney dorme. O céu é cortado por mais um trovão, a chuva toca as diversas superfícies e forma uma orquestra. Mais um coreano se expressa a plenos pulmões.

 

Seja defeito de fabricação ou virtude, costumo processar milhares de vezes meus atos. Há controvérsias quanto a isso. Alguns pensam que trata-se de quase uma obsessão o ato de refletir longamente sobre o que se passa; outros elogiam, referindo-se a isso com deferência. Seja como for, muitas coisas nesta viagem tem me remetido às minhas considerações sobre conservadorismos, ousadias, ímpetos e seguranças.

Lembro-me de uma oportunidade onde uma ex-colega do colegial me perguntou se não era saudosista, quando recordava dos bons momentos dos "velhos tempos". Definitivamente, lhe disse, não sou. Sempre quis ser vanguardista, arrojado, determinado, forte, destemido, conquistador, e tudo isso muitas vezes contrapõe-se aos humanismos da saudade, das raízes emocionais, das lágrimas.

 

Hoje, entretanto, vejo as atitudes como a dos coreanos com outros olhos.  Certamente, um dia, eu tivesse visto suas atitudes com um olhar repreensivo, afinal, não estamos todos aqui pra aprender inglês? Porque então não se privam de momentos proveitosos como estes para lançarem-se forçosamente aos desconhecidos territórios da língua estrangeira desejada? Não deviam estar ali tentando se comunicar com o outro idioma, aplicando o que aprenderam nas últimas semanas de aula?

Mas assim como descobri a importância da excitação e do ímpeto, inerentes às conquistas humanas, às vitórias, aí está a grande importância do conservadorismo, da zona de conforto e do respeito aos próprios sentimentos; talvez até um dia eu aprenda a como lidar com essas coisas ambivalentes ao mesmo tempo. O vanguardista sempre descobrirá os espaços, o conquistador sempre os desbravará destemidamente, mas será o conservador que proverá a manutenção, a continuidade da cultura e do que significa aquele espaço e pessoas.

A grande questão é que não são opostos, e sim complementares. Um não provê um futuro consistente sem o outro, em circunstância alguma.

 

E é por isso que não os condeno por seu momento de felicidade e descontração. Ao menos não mais. Invejo-os, inclusive. Adoraria eu estar envolto de brasileiros pra ter momento como esses, sentindo meu coração se encher de energia por poder dividir qualquer sentimento ou pensamento que venha ter.

22 de Março de 2009

Time machine

Todos os dias antes do sol se pôr os pássaros se unem em coro para venerar a vida. Uníssonos, produzem um canto singular, o qual só conheci em terras australianas. Em meio à arborizada cidade, movimentam-se em bando de um lado a outro em um movimento absolutamente sincronizado. É absurdamente lindo.

Todos os dias antes do sol se pôr eu paro qualquer coisa que esteja fazendo pra admirar o som que produzem. Me sinto inspirado.

 

Acostumado com diversas obrigações simultâneas, sufocantes cobranças e prazos, a sensação que tenho é de ter retornado à infância.

A aurora me desperta todas as manhãs sem qualquer intervenção mecânica ou elétrica. Não tenho mais mil coisas a fazer madrugadas a dentro, e cumprir a agenda tornou-se tão simples. A vida mudou completamente em apenas quase duas semanas.

Assim também vivem todos à minha volta, como se o ritmo do mundo fosse esse (e talvez realmente seja): uma existência que eu desconhecia há... há... tanto tempo. Minha infância perdida.

Sim... todos nós fazemos parte de uma estatística, e eu, pra falar a verdade, nunca me senti tão bem em fazer parte dela.

Talvez esses próximos meses em além dos mares brasileiros sirva também pra isso: pra re-viver o jovem que vivia dentro de mim apenas em função de metas, certezas e conquistas.

14 de Março de 2009

Excitação e expectativa

O cansaço das 36 horas que separam Salvador e Sydney jamais poderiam ofuscar energia que nitidamente pairava sob os corpos e mentes dos brasileiros que lotavam o vôo 1184 da Aerolineas Argentinas. Jovens e destemidos, todos desejavam aprender a falar o idioma mais exigido no mundo, e exalavam muita excitação nesta altura do ritual de transição.

Minhas indagações sobre aquelas pessoas mal cabiam em mim, acho que é mesmo um mal de quem se dedica aos fascinantes movimentos de mercado. A maior parte era tão jovem quanto eu, e viam na experiência a oportunidade de galgar vôos maiores do que poderiam nas vidas que já tinham em suas diversas origens brasileiras. Uma pequena parcela ansiava imergir completa e indefinidamente no universo australiano, e havia ainda uma quantidade menor de aventureiros, aqueles que simplesmente buscavam um momento na ilha-continente: conhecer, visitar e viver coisas, e então partir pra outro lugar. De alguma forma, eu me senti um pouco de cada um daqueles seres humanos. Muitos deles dominavam ainda menos que eu o inglês. Foi extremamente enriquecedor analisar aquelas pessoas, ou diria mercado?

Nos rituais ficam claras as marcas da cultura dos indivíduos, que nos envolve e embriaga: queiramos nós ou não, são as nossas raízes que nos significam. Por isso mesmo nos divertimos com a antipatia das aeromoças e comissários argentinos, com piadas sobre assuntos proibidos e os conselhos absurdamente iguais que cada um recebeu dos respectivos entes amados. Se muitas vezes no dia-a-dia nos esquecemos ou ignoramos que estamos em constante mutação, esta marca não estava presente em nenhum daqueles seres humanos. Era nítido nas nossas faces e rugas o quanto cada um de nós choraria e nos desesperaríamos pela falta da realidade que deixamos pra trás, uns por menos e outros por mais tempo.

Mas esta é a fascinante função da excitação e da expectativa no ciclo de vida humano: transcender limites e revolucionar a própria existência.